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© 2017 Mansur Murad Advogados

O conceito de beleza, no princípio, foi concebido, significado e publicizado por homens. As mulheres não representavam a si mesmas. A imagem da mulher e da beleza eram construções tão somente do imaginário masculino, normalmente associadas ao corpo harmônico e suas manifestações nas artes, principalmente plásticas. Ainda que os gregos associassem a beleza à sabedoria e à justiça, como Platão (428-348 a.C.), por exemplo, que relacionou o belo, com o bom e o verdadeiro; foi nas artes que a beleza se corporificou e se expandiu. Nesse sentido, arte e beleza estiveram muito próximas, para não dizer, amalgamadas, durante muitos séculos, como podemos comprovar nos registros da história da arte mundial. De algum modo, a beleza era um princípio fundador da arte, e a estética, o eixo da filosofia que estudava sua natureza e fundamentos, por meio do julgamento da percepção e das emoções.

 

Ainda nos dias atuais, a beleza se relaciona a determinados padrões estéticos que são culturais e que, portanto, são diversos e estão em crescimento; não são fixos no tempo e no espaço, ainda que princípios de simetria e proporção agradem a nós humanos em todo o planeta. Mas, o que é a beleza? Quais são os sentidos engendrados na sua constituição? Podemos defini-la como todo o fenômeno orgânico ou da cultura que nos atrai, que nos agrada, que chama a nossa atenção nos deixando abertos às sensibilidades, que traz prazer e fruição. A beleza nos prepara para receber, nos coloca suscetíveis aos nossos sentidos. Provoca um deleite. E quem era responsável pela beleza desde sempre? Certamente, a arte.

 

E agora, nos perguntamos, onde está a beleza? Depois de imersões em espaços artísticos e instituições no Brasil e no exterior, fica evidente que a arte contemporânea não tem mais compromisso com a beleza. A arte se transformou em outra coisa. Vou me ater apenas a alguns poucos exemplos vivenciados nos últimos anos.

 

Em 2016, a 32ª Bienal de Arte de São Paulo, intitulada “Incerteza viva” assumia que seu papel era “refletir sobre as atuais condições da vida em tempos de mudança contínua... Propõe assim traçar pensamentos cosmológicos...”. Tratava então de desgastes ambientais, tensões em terras indígenas, migrações, instabilidades econômicas e políticas.... Enfim, uma proposta contestatória, em certa medida política e denunciativa. Madeira, ferro, terra, rachaduras e arames em profusão davam o tom caótico, instável e triste, materialização de um zeitgeist muito sofrido.

 

A 14ª Documenta de Kassel realizada em 2017, seguiu pelos mesmos caminhos, ainda que mais exuberante e diversa, dado que se espalhava pela cidade alemã (inclusive com manifestações em Atenas, como nunca tinha antes acontecido), o tom geral era também de denúncia. Questões ligadas aos refugiados na Europa, a guerra na Síria, ao desemprego, a precarização do trabalho, as crises toda a ordem; conjugando um clima de medo, tragédia e paranoia.

 

Neste ano de 2018, a SP Arte (Festival Internacional de Arte de São Paulo) também segue a trajetória da arte que denuncia e expõe as mazelas e sofrimentos humanos variados, com algumas poucas obras mais otimistas, exceções. Mas se a arte contemporânea não se manifesta no belo ou por meio dele, onde está a beleza então?

 

Em uma conversa recente com Lucia Santaella, sempre inspiradora e admirável, a conclusão acerca da indagação, nos trazia como resposta, a moda. Sim, a beleza agora está na moda. Corpos perfeitos, roupas impactantes e acessórios exuberantes e cheios de sentido. Moda como a melhor possibilidade de expressão da identidade no contexto fluido e fugidio da sociedade pós-moderna. Mas, também vejo que a beleza está no design em seu sentido mais amplo. Nos objetos, nos móveis, nos utensílios das cozinhas e salas, nos jardins e varandas, mas também nos ambientes digitais que nos convidam à imersão e à experiência sensível. Materiais singulares que estimulam o toque e confundem o olhar, cores em mesclas inusitadas, misturas sinestésicas onde o objeto é cada vez mais corpo que coisa, tem temperatura, sons, fragrâncias, sabores. Objetos atratores do nosso olhar e do nosso corpo inteiro.

 

Se a beleza é o que nos atrai, ela só pode se dar a partir daquilo que suscita nossa admiração e que nos proporciona gozo. E quem nos dá essa fruição hoje são a moda e o design. A moda que nos identifica e o design que nos ambienta e acolhe física e emocionalmente.

 

A beleza há sempre que existir, pois ela é responsável por nos conectarmos com as nossas sensibilidades primordiais, suscitar as melhores e mais significativas emoções, enfim, ela faz com que nos sintamos mais humanos, grandiosos e potentes, talvez sublimes. Mesmo que imprevisível, assimétrica, hibridizada, tecnológica e transitória, como a que vivenciamos hoje. Diante de tantas crises, sofrimentos e frustrações, precisamos de algum conforto para continuarmos seguindo em frente, e aí só a beleza nos salva. A beleza como o objetivo primordial, o summum bonun da humanidade, porque como nos afirmou o filósofo e semioticista Charles Peirce (1839-1914), mesmo a ética tem de ser estética, porque a conduta ética é admirável, portanto, será necessariamente estética. Celebremos a moda!

 


Clotilde Perez

Professora titular de Publicidade e Semiótica da USP

Fundadora da Casa Semio

cloperez@terra.com.br